domingo, 30 de janeiro de 2011

Mama Mia*

Certo dia ele aparece de repente e quebra o silêncio do letreiro que anunciava a sessão cinema na sala da tia Rita: - Filme mamãe?
- É o ‘Mama Mia’. Vem ver, convido.
Ele, já atento, ouve a trilha sonora e procura as cenas que ilustravam o menu do DVD: - Mas cadê os gatinhos???
As risadas ecoaram pela casa e ele chegou a demonstrar irritação, mas ciente de sua razão repetiu: - Cadê os gatos???
Explico que ‘Mama Mia’ não é um filme sobre gatos, mas sobre amores, casamento, família etc.
E ele muito determinado lembra: - Mas quem mia é gato mamãe!!!
Levanta-se do sofá e muito imponente desdenha do tal filme que mia, mas não é gato e prefere sumir pelo jardim à procura, quem sabe, de miados verdadeiros…

(*) Texto publicado em agosto de 2009 na categoria Mãe Coruja do guiabemquerer.wordpress.com

Era real o desejo daquela menina...


Visto entre as varas sujas da cerca, o olhar da menina denunciava o desejo por um tipo de liberdade escandalosa.
Mas por que tipo de escândalo pode ansiar uma menina de dez anos?
Afinal, aos dez anos o que uma criança pode querer?
- Um doce da padaria?
- Um brinquedo novo?
- Um passeio ao parque de diversões?
Não aquela menina.
Para ela, brinquedos, doces e passeios, eram liberdades não imaginadas.
Seu escandaloso objeto de desejo era, na verdade, um amontoado de lixo que restara da seleção de comida dos porcos.
Era real o desejo daquela menina...


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Duo

O novo.
Tão instigante.
Talvez não exista em lugar algum.
Aparece como um lampejo de desejo envolvido num tal pudor desavergonhado.
Intenso, mas irreal.
Segredo nosso capaz de me deslocar para onde jamais estive.
E como arrastão deixar marcas por onde passa.
Incita, mesmo quando o detalhe não importa, quando apenas o todo é real.
Não levo as coisas a sério.
Por que interpretaria mal!?
O mundo é feito de impossibilidades.
Nasceu delas.
A nós... resta a intimidade com o caos.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Inferno particular

Faz algum tempo comecei a escrever algo sobre a frase copiada de algum lugar para meu messenger: “Talvez esse mundo seja o inferno de outro planeta”.
Enquanto pensava nas possibilidades de vida oferecidas no tal inferno, alguém sem pedir licença desafiava: “Talvez esse mundo seja o CÉU de outro planeta”.
Eu então me fiz exclamações e interrogações ao mesmo tempo (!?!?!?).
Como assim, alguém enxerga céu onde só existe sombra!?
Sei bem ser verdade que CÉU e INFERNO residem logo aqui dentro da gente. Mas a possibilidade de achar um céu se fazia impossível diante da confusão que só crescia e tornava turbulenta a vida dentro de mim.
Então, decidi pensar mais sobre o assunto e pensei, pensei... Ponderei.
Algum tempo se passou e hoje, testemunhando sorrisos e sonhos dando boas vindas ao ano que se anuncia, volto a sentir segurança nas sombras que me cercam.
Volto a pensar que céu e inferno estão dentro de mim e, muitas vezes, sinto vergonha de mim, de minha escolha. Afinal, “porque sofrer se você pode ser feliz?”, dizem por aí.
Mas, a verdade, é que céu e inferno trafegam juntos, sempre. Às vezes matam, às vezes fazem viver.
Enganam-se aqueles que do próprio céu julgam inferno o mundo de outrem, ou ainda quem do inferno, enxerga céu apenas no alheio. Às vezes, a consciência de que de nossos fantasmas apenas nós sabemos, é insuportável, provoca cegueira.
Resta, então, a certeza de que meu inferno é reduto particular, mundo desconhecido de todos. Nele, apenas eu sou visitante cativa, assídua.
Sei que de cada inferno, alguém busca planetas, terras longínquas, onde seres celestiais façam residência. A busca, no entanto, é vã.
CÉU e INFERNO continuam ao alcance de nossas difíceis escolhas, dentro de nós e não em lugares distantes.
A minha escolha? “Ao menos hoje meu mundo é apenas uma sombra.”

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

No mundo da lua*

Conheço um menino que se fosse desenho seria um misto de Menino Maluquinho e Fantástico Mundo de Bob.
Mas esse menino é real. Posso sentir seu cheirinho de traquinagem e ver no azul dos seus olhos um mar que não pertence à Terra.
Sua poderosa roupa de astronauta pode levá-lo aos planetas mais quentes, ou aos mais frios; às vezes até mesmo ao sol. Sua nave é capaz de escapar da força de um buraco negro e trazer de lá a luz capturada.
Em suas viagens há sempre uma legião de heróis: seres fantásticos que vão de dragões de mil anos a simpáticos morceguinhos que o guiam na escuridão.
No cinema e nos livros não tarda a incorporar os seres mais surpreendentes e não pense que ele será o domador das feras, ou o índio que salva a tribo. Na verdade, ele é o próprio dragão amigo dos homens e da natureza; é o espírito livre da floresta que ajuda o índio a virar herói.
Com sua inconfundível janela inferior aberta a novos sabores de aventura, traz sempre um sorriso branco de quem espera conquistar o mundo com a luz que nasceu fadado a carregar.
Dividido entre o real e o imaginário, não titubeia na hora de escolher a fantasia como meio para atravessar pontes e chegar a lugares mágicos onde todos os seus desejos podem se realizar.
A mim, resta a chance de ser diariamente convidada a cruzar a ponte mágica e viajar com ele sem previsão de terras onde aterrissar. E se às vezes meu eu adulto e rabugento pede que ele volte do mundo da lua, simplesmente me olha com aquele mar azul alienígena e desafia: “Ôxe mãe olha eu aqui!”.

(*) Texto dedicado ao meu pequeno viajante, ser capaz de nutrir com vida qualquer espírito moribundo.

Melancolia de uma jornalista


Necessidade enorme de histórias de gente... vontade vital de escrever. 
Que maldade é essa que trancafia os sentidos e deixa sem palavras essa minha vontade de contar?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Transformação

E se a vontade se transformasse em ação?
Certamente nasceria uma decisão.
Mas será que toda decisão implica em transformação?
É certo que a palavra decisão vem sempre carregada de ação, mas se toda ação é transformação, o que seria a decisão de não decidir?
E se for ação permanecer onde se está?
E se for ação não mudar a opinião?
E se simplesmente decidir não decidir?
Ah! Se a assim pudesse ser...
Se essa velha que me habita permitisse quietude, quem sabe poderia bastar apenas o que já é...